BEM VINDO!

Este é um espaço criado para que possamos trocar informações sobre:

- Psicanálise;
- Comportamento Humano;
- Patologias Psicoemocionais;
- Sentimentos: que constroem e que destroem;
- Relacionamentos;
enfim, toda abordagem que puder levar informação sobre melhor qualidade de vida
emcional.

Os textos não têm a pretenção de orientar, mas sim de poder oferecer uma alternativa de interpretação.
Sinta-se a vontade para opinar, contestar e discutir. Aqui, o que você pensa, será bem vindo!

Abraço,

Lindalva Moraes Pereira
Psicanalista –
SJCampos

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

A CONSTITUIÇÃO DO CARATER

Antropologicamente, temos a tendência em defender em primeiríssimo lugar, nossos próprios interesses aos dos outros. A princípio, é bastante natural este mecanismo de sobrevivência, desde que: defender seu próprio interesse não implique em lesar o outro.

Num evento, tive a oportunidade de analisar o comportamento de um grupo que manifestava a seguinte opinião: se “gabavam” e disputavam entre si, para saber quem mais se dava bem, “encontrando” coisas perdidas pelos outros. O primeiro havia “achado” naquele dia um aparelho de rádio/ celular, num balcão de comércio, e o quanto antes, tratou de alterar as conexões para seu próprio uso; outra dizia que, ao andar numa rua, viu a sua frente uma moça perder uma pulseira, observou se ela não havia percebido a perda, disfarçou com o pé sobre a peça, até que a legítima dona se afastasse e obviamente se apropriou da jóia; outro ainda dizia que sempre que viaja de avião, fazia questão de ser o último a sair da aeronave porque pessoas distraídas, sempre esquecem pertences para traz; e assim foi até chegar na anfitriã da casa que demonstrou aprovação e cumplicidade com o comportamento destes seus convidados.

Bem, a esta altura eu já havia desistido de manifestar o meu “obsoleto e hilário” senso de honestidade, já que parecia ser minoria absoluta e ímpar no lugar. Não gostaria de atrair a atenção de todos como razão de chacota.

Aí eu pergunto: pessoas com este ponto de vista, têm o direito de reclamar de políticos corruptos, da cobrança de imposto abusivos, do patrão que explora seus funcionários?
Eu mesma respondo: não! Tecnicamente não tem direito. O conjunto de conceitos e valores que formam o caráter de uma pessoa tem apenas uma origem, ou seja, se sua propensão é para a honestidade, então assim se comportará em qualquer ocasião ou proporção, se não é, não será para uma pulseira ou para um milhão de dólares. Só dependerá da oportunidade da manifestação do caráter.

O que quero dizer com isto é que o único fator que diferencia quem se apropria de R$ 1,00 de quem assalta um banco e leva R$ 1 milhão, é que o segundo é mais ousado que o primeiro. O princípio de desvio de caráter é o mesmo: se apropriar do que não lhe pertence.

E aí entramos no mérito, que para muitos legitima este comportamento: “não me pertencia até alguém ter perdido e eu ter achado, logo, não se caracteriza como roubo, mas sim sorte minha e azar o dele”.

Não podemos dar o nosso “jeitinho” de interpretação para justificar e distorcer os fatos. Algo perdido é aquilo que não fazemos idéia de quem é o dono, que não há maneira de identificá-lo e ainda assim, há a possibilidade de deixar o objeto onde o encontrou na esperança do dono voltar a sua procura. Todos querem ser “espertos”, ninguém quer se passar por tolo, afinal se ele não levar outro irá fazê-lo mesmo... E assim caminha a humanidade...

Caminha para uma preocupante tendência: a derrocada dos princípios de civilidade, e as próximas gerações estão assistindo seus pais se gabarem e orgulharem desta “esperteza” toda, e certamente seguirão seus exemplos.

É muito trabalhoso constituir bom senso de caráter e retidão, honestidade e honra, nenhuma pulseirinha, aparelho celular, ou o valor que seja, vale abrir mão de tamanho patrimônio. A nossa constituição psíquica é muito frágil, ela se flexibiliza com facilidade as nossas necessidades, portanto, muito cuidado com a plasticidade das interpretações acerca do que é certo pra você.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

DEPOIMENTOS



Já há algum tempo, tenho pensado o quanto gostaria de compartilhar com outras pessoas, os casos de sucesso que passaram pelo consultório, que se submeteram a um tratamento psicanalítico sério, com propósitos distintos, mas com o mesmo objetivo: aumentar sua qualidade de vida psicoemocional através da elaboração, aceitação ou dissolução de seus conflitos, de auto conhecimento e de muitas descobertas acerca de seu próprio comportamento.

É bem fato que já pratico isto. Uso os exemplos que conheço para ilustrar uma questão abordada, falo sobre teorias diagnósticas utilizadas para tratar patologias, mas sempre, sem dúvida, protegendo integralmente a identidade dos protagonistas. Isto é de grande valia para quem ouve e sente que não é o primeiro a enfrentar tais problemas, ou que outros encontram solução por pior que pudesse parecer suas realidades. O objetivo é, além de levar informação, também oferecer encorajamento. E sinto que atinjo ambos objetivos muitas vezes.

Agora, com a ajuda de alguns analisandos, que não estão mais em tratamento porque já atingiram seus objetivos, será possível fazer isto de uma maneira muito mais fiel, porque poderia disponibilizar seus testemunhos, através de suas próprias palavras, ocultando sempre suas identidades.

Rogo para que este espaço sirva de encorajamento e crença para quem busca forças para enfrentar seus conflitos, que ele cumpra seu papel da maneira mais sincera e despretensiosa possível.

Agradeço imensamente aos que se propuseram a colaborar com esta idéia, e que compartilharam comigo o desejo de oferecer alento a quem busca amparo.

FÁBULAS, FANTASIAS E FRUSTRAÇÕES



Aprendemos desde criancinha, a fantasiar, aliás, podemos crer que esta habilidade não é necessário ensinar a uma criança, ela a incorpora naturalmente. E os contos de infância, onde habitam as fadas, os príncipes, as bruxas, os duendes e principalmente a célebre: “felizes para sempre”, parece que toda criança está “fadada” a conhecer.

A questão, é que esta habilidade incorporada na infância, nos acompanha também na vida adulta, e muitas vezes nos prega peças, distorcendo a realidade e ofuscando a nossa visão. Assisto isto acontecer com muitas pessoas maduras, inteligentes, perspicazes e submetidas ao mesmo cativeiro: o das suas próprias ilusões.

Eu explico melhor: não é raro encontrar mulheres que idealizaram seus companheiros, depois se casaram, e projetaram essas fantasias sob seus maridos. Algumas vezes o sujeito sequer passa perto do perfil idealizado, é apenas um figurante que receberá as projeções. Mas o desavisado, quase sempre, não é informado sobre seu papel a desempenhar e, fatalmente, decepcionará a roteirista (sua esposa). Ele pode ter, e certamente tem, outras características que poderiam fazer dele um bom marido, mas elas (as suas características) não estão contempladas na fantasia inicial dela (a esposa), então não são consideradas como válidas.

O mesmo ocorre com os homens que idealizam suas gatas borralheiras: que lavam, limpam, cozinham, cuidam de filhos, e estão lindas, alegres e sorridentes esperando-os chegar, sem tecer nenhuma reclamação, sinal de cansaço ou frustração. E tem mais: muitas gatas borralheiras ainda trabalham fora, tanto quanto seus maridos.

Brincamos de faz de conta o tempo todo, só mudamos o contexto das fábulas, não fazemos isto só na infância, mas continuamos a fazer na vida adulta e não percebemos, nos frustramos, nos decepcionamos, cobramos do outro o que ele nunca se propôs a oferecer e quando somos apresentados a realidade, ainda conseguimos transferir a culpa para o outro.

Existem as pessoas que insistem em suas fantasias até o último suspiro, não abrem mão de suas idealizações haja o que houver. Mesmo se o figurante for a representação do avesso do papel idealizado, ainda assim preferem pagar o preço.

Idealizamos o trabalho, a casa, o marido, os filhos, os amigos ideais, tudo que corresponda a nossa necessidade de fábula, e deixamos do lado de fora da nossa aceitação, tudo o que não corresponde. E aí pode ficar de fora tanta coisa aproveitável, tanta gente boa, tantas outras qualidades não vistas, tantas verdades não ouvidas. Simplesmente porque o roteiro foi escrito a tinta e não a lápis.

Também há quem, a primeira vista, aceita o figurante como ele é, depois descobre que não corresponde ao escopo, e quer cobrar esta conta dele. Como uma Rapunzel que se sacrifica esperando o cabelo crescer por anos a fio, até descobrir que o Príncipe tem medo de altura e nunca subirá na torre, mas ela perguntou isto a ele antes por acaso?

Já recebi algumas mães, que traziam seus filhos para tratamento terapêutico, porque eles “tinham problemas”. Quando na verdade o único problema era não corresponder às expectativas de personalidade e comportamento que a mãe havia traçado para eles.

O mesmo ocorre nas terapias de casais, onde um dos dois, ou até ambos, busca(m) a cumplicidade do terapeuta para “mudar” seu companheiro(a). Não necessariamente porque há uma patologia estabelecida, mas porque seu comportamento não combina com as expectativas do outro.

Essas fantasias, normalmente se instalam, ao longo do tempo, no âmbito na nossa inconsciência, portanto, é necessário questionar por que algo ou alguém não corresponde às nossas expectativas? Por que é consistentemente inaceitável ou simplesmente por que não combina com nosso “fabuloso universo particular”?

Os sonhos e as idealizações devem fazer parte da vida de qualquer pessoa, desde que não seja uma manifestação egocêntrica, ou um mecanismo para saciedade de carência afetiva, ou seja, se alguém se molda aos desejos do outro, isto pode ser interpretado como prova de afeto, mas não é a maneira saudável de fazê-lo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O CASAMENTO NO DIVÃ



Uma vez me perguntaram por que a terapia de casal, em sua totalidade, acontece entre casados, já que noivos e namorados também têm seus conflitos?

E a resposta foi simples: porque enquanto não temos a tal “assinatura” do outro no contrato jurídico e/ou religioso, continuamos fazendo de conta que o aceitamos como ele é. E também porque a vida a dois, debaixo do mesmo teto, muda muito quem era apenas namorado.


Parece sórdido, mas não é. Existem outras assinaturas que têm a mesma referência: um filho, uma união estável superior a 1 ano, enfim: garantias. Quando o sujeito se sente ilusoriamente “garantido”, há uma tendência em ampliar as fronteiras dos seus direitos sobre o outro.


E a partir daí, busca-se, gradativamente, mudanças, adequações, aceitações, aperfeiçoamentos em favor próprio, como se isto fosse totalmente legítimo de ser feito, já que se propuseram a estarem juntos. Mas, veja bem, este é um mecanismo (às vezes) involuntário e inconsciente, acontecendo de ambas as partes, simultaneamente. E, graças ao amor que sentem um pelo outro e o desejo de permanecerem juntos, filhos, ou razões diversas, vão cedendo, às vezes sob alguma resistência, mas vão se moldando um ao outro. Invariavelmente, todo casal passa por isso, alguns em maior proporção outros em menor, mas nenhum escapa.


E as tais adequações não se limitam a ordem prática, do tipo como cada um prefere dormir ou a ordem que preferem seus armários, estou me referindo a algo muito mais complicado que isto: o comportamento, as atitudes, a maneira de ser e pensar de cada um.


Algumas vezes, antes do primeiro ano de união já está estabelecida a confusão e ninguém sabe como ou por que ela se deu, já que enquanto namoravam tudo ia tão bem. Em outros casos, levam alguns anos para um dos dois se dar conta, que muito da sua identidade pessoal se perdeu, ou pior, foi roubada, sua referência de si mesmo(a) está toda emaranhada com características que ele(a) não teria escolhido para si.


A nobreza da vida à dois é justamente compartilhar, oferecer e receber cumplicidade, construir um relacionamento sob alicerces firmes, que podem perfeitamente ser diferentes. O grande empecilho é que a maioria não aceita navegar num barco que tenha dois lemes, há o medo de repente de se ver à deriva.


Garantir o controle do relacionamento, cravar suas condições no coração do outro, não significa evitar os riscos implícitos na vida a dois. E é por temer tais riscos que se acaba por tecer armadilhas maiores e às vezes insolúveis.


O casamento significa vidas compartilhadas, mas continuarão a serem duas, o relacionamento será um só, mas seus membros continuarão a ser cada um, um. O conceito que se distancia muito disto, acaba se aproximando de contos de fadas que não condizem com a vida real e a realidade não sobrevive de ilusões.


E o que traz estabilidade e equilíbrio aos conflitos não é uma varinha mágica, mas sim a comunicação, conquistada e amadurecida às duras penas, onde a humildade de suportar ouvir o que não deseja, vindo da boca do outro, deve ser maior que a própria vaidade, a generosidade de querer o melhor não só para si, mas para ambos, deve se sobrepor ao próprio instinto.


Isto é casamento na prática. Não se iluda ao ponto de acreditar que é fácil, mas não desista ao ponto de achar que é difícil. É vida à dois!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

FRAGILIDADE EMOCIONAL



Na semana passada, assistindo a um noticiário esportivo, fui surpreendida pela atitude de um técnico de futebol, que fez uso de uma estratégia psicológica para atingir seus objetivos. E, resta complementar para justificar minha surpresa, o sucesso que este técnico obteve, pelo menos no que diz respeito aos seus propósitos daquele momento.

Eu explico: o jogo (ou o resultado dele) favorecia a determinado time (o do técnico em questão), no entanto, havia um ou dois jogadores do time adversário, que estavam apresentando um desempenho que poderia representar uma ameaça. Um deles já transparecia estar emocionalmente desgastado, sua irritabilidade passou a ser visível, foi quando justamente, identificando este fator, este técnico (o do time em vantagem) pediu uma substituição e colocou um jogador com um propósito distinto ao de jogar bola: era com o objetivo de provocar a expulsão do jogador “ameaça” que já se encontrava em fragilidade emocional. E conseguiu!


Pois bem, cheguei ao ponto que gostaria: a tal fragilidade emocional, aquele momento em que tudo fala mais alto, menos a ponderação. Quando é a raiva que predomina, nos sentimos até mais fortes para lutar contra o outro; quando é a revolta e a indignação, nos tornamos surdos para nos concentrarmos apenas na nossa versão; quando é a ameaça então, adquirimos novas habilidades para sustentar a própria defesa; e o sentimento do ciúme? Este é o mais irracional deles.


O que de fato eu gostaria de pontuar é que a fragilidade emocional leva a uma grande ilusão psíquica, pois quando nos sentimos tomados pelas sensações descritas acima, e quase sempre nos sentimos mais fortes, é justamente quando estamos mais fracos, expostos, previsíveis e impotentes emocionalmente. Em grande desvantagem com relação a quem ainda detém o controle das emoções. E o mais interessante desta ilusão é que “perder o controle” dá prazer! Isto mesmo! Um prazer oculto, que desopila o fígado e produz adrenalina. Está aí a sedução em “chutar o balde emocional” de vez em quando. A questão é: que benefício isto traz? Quase sempre: nenhum, ou pior: arrependimento.


A terceira lei de Newton, que diz: “a toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade”, poderia estar muito mais para teoria psicanalítica do que para Física, tamanha é a frequência com que se reproduz no comportamento humano.


Enfim, guardadas as exceções patológicas (TPM, Bipolaridade, Depressão, etc.), é possível cada um estabelecer para si, uma linha limite entre o autocontrole e a perda dele, e instalar aí, uma sirene de emergência, que deve tocar cada vez que esta linha estiver prestes a ser ultrapassada. E quando tocar é essencial mudar imediatamente o foco da atenção, até restabelecer a ponderação.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

ANTIDEPRESSIVOS E ANSIOLÍTICOS



A Revista Época, edição de fevereiro/ 2009, trouxe um artigo interessantíssimo sobre ansiolíticos, especificamente o Rivotril, que vale muito a pena discorrer mais sobre o assunto.

Lá (no artigo) menciona que em 5 anos, este medicamento pulou no ranking do 6º mais vendido no país para o 2º, superando até mesmo os medicamentos básicos da “farmacinha doméstica”. Por que isto ocorreu?


Entre outras respostas, uma delas, mas não diria que a principal: é seu baixo custo. Mas o que nos interessa especular mesmo, é o que leva tanta gente a recorrer ao seu uso, ainda mais sendo uma venda controlada por receita restrita? As pessoas adoeceram mais nos últimos 5 anos, houve uma campanha de marketing da indústria farmacêutica sobre o remédio, os psiquiatras concluíram através de estudos que este medicamento é a base para o tratamento de patologias diversas? Não para todas estas perguntas.


O que impulsionou esta venda, além de seu baixo custo, é esta necessidade crescente em buscar soluções imediatistas para os sintomas, sem se interessar pela causa deles. É uma demanda de pacientes superior a oferta de profissionais nesta área (Psiquiatria), o que acaba viabilizando esta solução paliativa que ameniza o incômodo do problema enquanto se posterga a sua “cura”.


Só que, não existe ansiolítico sem efeito colateral, nem tão quanto dosagem segura, ou seja, sem risco de causar dependência, cada organismo é um e cada um reagirá biologicamente de forma diferente.


A ansiedade faz parte da nossa formação psíquica, não há como extingui-la, é ela que nos impulsiona para a vida. Quando ela se transforma em uma patologia, alguma razão há para isto.


A diferença entre a minoria que necessita do uso da medicação e necessitará, talvez, permanentemente, e a maioria que viu no seu uso uma resposta rápida para um sintoma sem resposta, é justamente a ilusão de que isto é possível ser feito sem conseqüências.


O uso de um psicofármaco é coisa séria e deve ser tratado como tal. Não é solução instantânea, ao alcance do uso comum, que as pessoas podem recorrer a qualquer momento. As facilidades, os avanços, as descobertas de novos recursos provenientes dos últimos séculos, devem ser usados para nos promover a saúde e a longevidade, mas isto não significa necessariamente a via mais fácil, o caminho mais curto ou de menor incômodo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE



Aos poucos, patologias psicoemocionais que não eram muito exploradas e decodificadas estão sendo cada vez mais, alvo de estudos e classificação, o que é excelente, no entanto, isto implica numa outra questão: os diagnósticos ou auto-diagnósticos, equivocados. Quanto maior o número de opção diagnóstica para um conjunto de sintomas que se assemelham entre si, maior a dificuldade em identificar o correto.

Um exemplo desta dificuldade é equalizar os sintomas, com o histórico de vida, mais o contexto atual familiar e determinar o Transtorno de Personalidade Borderline ou Transtorno de Personalidade Limítrofe.


O termo Borderline, faz alusão a “linha da borda”, a condição emocional “fronteiriça” entre a neurose e a psicose. O termo foi usado pela primeira vez em 1884, por um psiquiatra inglês chamado Hughes, depois disto, foi abordado com outras classificações, mas sempre com o mesmo significado. Reich chamava de “caráter impulsivo”.


Deixando de lado a questão epistemológica e partindo para o fundamento do artigo, acredito que ainda há muita incerteza em caracterizar uma patologia como Borderline. Vejo que a principal atribuição para esta conclusão é a tendência a auto-lesão, a pessoa que intencionalmente se machuca/ mutila por razões que estão acima do seu desejo de controle.


Na verdade este transtorno vai além deste sintoma e é mais complexo do que a maioria das pessoas acreditam ser.


A começar pela causa razão de sua instalação, que apesar de se ter identificado que aproximadamente 70% dos casos, estão relacionados à abusos sexuais na infância, não é o único ou principal fator que possa desencadear a patologia, também faz parte deste quadro:

- ainda na infância, abandono ou negligência dos pais ou cuidadores;
- exposição excessiva a experiências de humilhação e frustração;
- confronto precoce com situações insolúveis;
- entre muitas outras.

O mesmo ocorre com relação aos sintomas ou características do Borderline. Conforme citado acima, a principal característica apontada é a auto-lesão, no entanto, isto por si só não basta, de forma alguma para determinar este distúrbio. Existem outros sintomas, que auxiliam a formar um quadro mais preciso de identificação:


- sentimento permanente de vazio ou incompletude;

- temerosidade ao abandono, separação;
- intolerância a solidão;
- tendências sexuais não normais (Parafilias);
- dificuldade na administração de conflitos pessoais;
- pequenos estressores causam grande fúria;
- imediatismo desregrado;
- incapacidade de sentir prazer (Anedonia);
- neurose poli-sintomática (Fobias, TOC, Histeria de Conversão, Amnésia Breve, Hipocondria, Impulsividade desordenada, etc.);
- dificuldade no desempenho de tarefas que exigem perícia e persistência;
- psicose breve (desrealização/ despersonalização);
- entre outros.

O tratamento psicoterapêutico poucas vezes tem chance de ser suficiente para tratar o Transtorno de Personalidade Borderline, muitas vezes, essencialmente, é necessária a administração de antidepressivos e estabilizadores de humor, indicados pela Psiquiatria. E a partir daí, a eficácia do acompanhamento analítico terá “fôlego” para identificar e tratar a causa do distúrbio. Quando o problema é identificado no início da sua manifestação, é possível que a intervenção medicamentosa não seja necessária.


Como todo distúrbio psicoemocional, o desgaste não se limita só ao sujeito, mas sofre tanto quanto, quem está ao seu lado, como a família. A falta de conhecimento e da identificação de que se trata de uma “doença” torna tudo ainda mais difícil.


Esta é uma abordagem bastante sucinta sobre o assunto. O importante, a saber, é que há tratamento, há como converter casos crônicos através de conciliação terapêutica adequada.

sexta-feira, 13 de março de 2009

O INCONSCIENTE E SUA LINGUAGEM


Há tanto o que saber sobre este tal inconsciente, tanto se fala sobre ele, mas nada se explica, até dizem que é ele quem detém 99% da atividade mental do sujeito.

Pois é, isto tudo é verdade! Ele toma conta de quase toda a nossa massa cefálica pensante e nem sequer temos comunicação direta com ele. Absurdo? Não, arquitetura providencial.


Se com o domínio de apenas 1% dos nossos pensamentos, que corresponde ao nosso consciente, nos assoberbamos às vezes, imagina com pouco mais que isto? Quem não duvidou, só por um instante, do destino da sua sanidade, em algum momento? Difícil. Situações de ansiedade, medo, stress, pressão emocional, nos levam a duvidar da nossa própria capacidade mental, talvez apenas por alguns segundos, mas acontece.


É por estas e outras razões que somos “protegidos” de nós mesmos. Estranho, não é? Mas é a inteligência genética articulando a nosso favor.


O fato é que este gigantesco inconsciente possui um “poder memorável” e incalculável. Imagine um banco de dados, que possui a capacidade de processamento superior a velocidade da luz, incrementado com uma capacidade de armazenagem infinita. Imaginou? É o nosso inconsciente.


Absolutamente nada escapa a ele, todas as informações desde a vida intra-uterina estão armazenadas lá: sons, imagens, sensações, cores, pessoas, detalhes, circunstâncias, tudo. Ele detém o conhecimento, não só o armazena, mas processa os dados e os transforma em informações a seu favor. No entanto, infelizmente, ele não possui comunicação própria com o seu consciente, ele recebe e absorve o que você sente, e devolve pra você, conforme recebeu. Ele é magnífico, mas totalmente sugestionável por sentimentos e submisso a você.


Por isto o seu inconsciente pode ser considerado o aliado mais poderoso e mais fiel para a realização dos seus desejos. Isto pode ser muito bom ou muito ruim, dependendo de que tipo de sentimentos você o está alimentando.


Converse com ele, nutra-o de bons pensamentos, concentre sua fé no que é bom pra você e não no que você teme. Ele dispõe, sobretudo, da linguagem dos sonhos para se comunicar, então, quando se deitar procure guiar seus pensamentos para boas realizações, planos produtivos, sentimentos nobres, isto poderá não só viabilizar um sono tranqüilo, mas também mensagens produtivas ao seu “servo maior”.


Quando tememos algum acontecimento, é nosso consciente tentando nos preservar e nos preparar para o pior, mesmo que este pior sequer aconteça. Não dê ênfase a este mecanismo de defesa, para que ele ocupe um espaço além do necessário nas suas emoções, controle-o.


Algumas personalidades muito importantes utilizavam o poder do inconsciente a seu favor, mesmo sem conhecer a dimensão do seu potencial, só sabiam que funcionava.


· Mendeleyev viu um quadro completo com as substâncias químicas da Tabela Periódica durante um sonho;

· Herschel sonhou com o planeta Urano antes de o ter descoberto;
· Edison, inventor com mais de mil patentes em seu nome, por vezes dormia à mesa de trabalho com pesos nas mãos: quando estes caíam , acordavam-no e ele recordava os seus sonhos - muitos dos quais deram origem a novas invenções.

É necessário frisar que nada há de místico no poder no inconsciente, é científico. Quando Herschel sonhou com Urano, o seu inconsciente já tinha registrado dados que o levavam a este conhecimento, mas foram ignorados pelo seu consciente.


O nosso recurso inconsciente nunca foi tão explorado como nos últimos tempos, mas ainda não nos demos conta do tamanho do seu benefício. Provavelmente, quem usufruirá com eficácia destas descobertas, são as gerações futuras.


Tente, teste, comprove, você não tem nada a perder, a ferramenta está dentro de você mesmo. Concentre-se no que você deseja, instrua seu inconsciente, plante pensamentos nobres, não permita que a raiva, a vingança, o medo, o desamor ocupe um lugar tão nobre e produtivo da sua mente. E boa colheita!

quarta-feira, 11 de março de 2009

RESPONSABILIDADES E CONSEQÜÊNCIAS NA QUESTÃO DO ABORTO


É antigo o meu desejo de escrever sobre este tema, mas não havia ainda descoberto uma maneira de fazê-lo com a imparcialidade moral que o assunto exige.

Eu vejo certo “perigo oculto”, que ronda as especulações sobre o aborto, uma ameaça de ordem social, a mesma que gira em torno do assunto da violência no país, principalmente cometida por menor infrator, versus o código penal obsoleto.


O foco que quero dar é para o comportamento analítico e a influência sociológica como conseqüência. Se estiver prolixo, eu explico: a nossa organização psíquica, obedece a certas “regrinhas” desde que nascemos e começamos a receber informações e influências, entre elas, as crenças e condutas morais, o que posteriormente determinará a nossa inclusão no meio social saudável, ou seja: aprender a não roubar, não matar, não mentir, etc., e para que este aprendizado seja eficaz, é necessário que saibamos que há penalidade para cada ato, ou seja, aprender a lidar com a responsabilidade das conseqüências é imprescindível para a formação do caráter do sujeito.


No caso do menor infrator, parece-me que o código penal não corresponde a reeducação comportamental, logo, não ensina a lidar com conseqüências, o que faz destes adolescentes, delinqüentes cada vez mais reincidentes. O mesmo pode ocorrer com a questão do aborto como método contraceptivo.


É simples de compreender a analogia: a “conseqüência” de nascer sob o sexo feminino, é de poder gerar uma vida, para algumas isto é uma dádiva e para outras um fardo. Tudo dependerá da responsabilidade com a conseqüência, de cada uma.


Não quero, e nem posso entrar no mérito, de ir em defesa ou contra a questão do aborto, só chamo a atenção para a armadilha de brincar de ser “Deus”. Os governantes de alto escalão são um bom exemplo desta tentação, presenciamos abusos o tempo todo, porque não se consideram suscetíveis a conseqüência da penalidade. O menor infrator também não. A interrupção de uma gestação, por mera inconseqüência (método contraceptivo), também não.


A constituição psíquica do sujeito precisa de limites, precisa se desenvolver amparada por padrões coletivos, que garantirão o seu bem estar social, e abrir mão destes conceitos ou recusar as responsabilidades implícitas nisto, é acreditar que é possível ficar apenas com o lado bom das coisas e ignorar os compromissos que vêm no mesmo pacote.


Responsabilidade e Conseqüência são palavras de “ordem” que precisamos para nos orientar dentro de uma formação psíquica saudável.

terça-feira, 3 de março de 2009

HIPNOSE


Este tema é tão rico e tão deturpado ao mesmo tempo! Em torno dele há: muita imaginação, misticismo, falsas crenças, ilusão, mas há também uma importante ferramenta de programação neurolinguística, que pode se mostrar bastante eficaz, se, utilizada por profissionais capacitados e com propósito terapêutico.

Na verdade a Hipnose é tão somente “sugestionar” ao subconsciente o que se deseja. Torna-se um pouco mais complexo porque para isto, é necessário, “driblar” a vigilância do consciente, através de concentração e determinação.


Antes de continuar, é necessário esclarecer algumas dúvidas que ouço com frequência:

- não é 100% da população que é suscetível à hipnose, em média 30% das pessoas não estão propensas a ela, isto varia de acordo com o grau de sensibilidade, ansiedade, conhecimento do procedimento, etc;
- ninguém “revela” o que não deseja sob hipnose. O subconsciente não possui comunicação própria, no entanto, é dono de inteligência suprema e monitora tudo o que se passa;
- a hipnose não “apaga” lembranças, ela pode oferecer uma nova percepção ao indivíduo com relação a elas;
- o temido “transe hipnótico” nada mais é que alto grau de concentração do indivíduo em função de um propósito. Portanto, ele próprio pode decidir interromper o exercício quando desejar, ele apenas acredita “momentaneamente” (porque faz parte do exercício) que está sob sugestão incondicional do terapeuta, mas o controle está com ele o tempo todo.

Certa vez, alguém me pediu para “plantar” algumas idéias repletas de positivismo em seu subconsciente, com isto, ele passaria a ser “outra pessoa”. Veja bem, se ele próprio me listou o que gostaria de ter em mente, significa que já está lá, veio dele, não é de origem externa.


A hipnoterapia, que parte dos preceitos psicanalíticos, não “muda” pessoas como mágica, nem tão quanto “inventa” atributos que ela não tenha. Ela trabalha com material já existente, ressaltando o que há de bom, apaziguando o que há de ruim e também desenvolve o que precisa ser criado, mas de maneira “artesanal”, da ordem do inconsciente para o consciente, com calma e lucidez e não como ilusão.


Muitas vezes os problemas e a incidência das dificuldades para resolvê-los nos fazem acreditar que há atalhos possíveis, soluções fictícias, fáceis e indolores, mas isto é fuga, é negação ao enfrentamento das situações como deve ser.


A função da hipnose, bem como de tantas outras ferramentas terapêuticas, é de auxiliar, agir como complemento, oferecer suporte para o tratamento de uma patologia ou de outros propósitos. Não é a solução, é apenas uma ferramenta pra ela.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

SÍNDROME DO PÂNICO






Eu tenho uma definição bastante objetiva para definir esta patologia, que quem sofreu ou sofre da síndrome pode compreender rapidamente: “o pânico é o medo do medo natural da vida”, ou seja, viver é perigoso e quem desenvolveu a síndrome por alguma razão foi provocado a pensar nisto.

Estar sozinho é perigoso, mas estar no meio de muitos também é; sair às ruas é perigoso, mas ficar dentro de casa também é; comer peixe é perigoso, mas pão também é; e assim podemos enumerar centenas de atitudes e atividades de “risco”.


Estamos expostos ao “perigo de estar vivo” a partir do momento em que nascemos, e desde então, corremos o risco da morte, já que pra isto basta estar vivo. De tão elementar, seja a ser banal esta afirmação, mas é assim que funciona a instalação da síndrome: medo, medo e medo, muito mais inexplicável do que explicável.


A sensação de ameaça iminente, vinda de não se sabe onde, mas que paralisa, toma conta, impede.


O desencadeamento da patologia pode ter origens diversas: no passado, no presente, num trauma, num recalque, numa projeção, não há um padrão, cada pessoa terá seu histórico e com ele sua razão. O importante a saber, é que independente da origem, ela provoca uma falha no sistema neurotransmissor cerebral, que por sua vez será responsável pela manifestação dos sintomas: pensamentos aterrorizantes, sensação de perigo, taquicardia, medo de ficar só, sufocação, etc. E, portanto, muitas vezes, é necessário não só um acompanhamento terapêutico, mas também a administração medicamentosa, que auxiliará na inibição dos sintomas, enquanto paralelamente, a causa é tratada. Aqui, vale lembrar, que prescrição de remédios deve ser, impreterivelmente, feita por médicos; psicólogos e psicanalistas não possuem autorização para isto.


Através da clínica, foi possível identificar que o pior da síndrome não está nos sintomas, mas sim no sentimento de solidão de quem é acometido por ela. Nem sempre é possível, para quem sofre, explicar a dimensão do problema, bem como, nem sempre é possível à família, compreender.


O pânico não se explica sozinho, e quando há uma justificativa, do tipo pós traumático, fica ainda pior, porque as pessoas acreditam que com a causa esclarecida, os sintomas devem se auto dissiparem naturalmente, mas não é assim que funciona.


Há registros da Síndrome do Pânico desde a Idade Média, no entanto, não era classificado como uma doença e nem tratado como tal. O padecimento das pessoas obrigatoriamente tinha que ser oculto, para se protegerem de um julgamento injusto e um tratamento incorreto.


Hoje as pessoas que sofrem deste problema podem e devem procurar ajuda, mesmo através da rede pública, não é mais necessário sofrer no anonimato e sentir sua vida escoar dia após dia, sem poder usufruir dela.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A IDADE MESTRE


Não me identifico com o termo: “Terceira Idade”. Acho que ele não define com clareza a que se refere, afinal, quando começa e quando termina cada “Idade”? Não tratamos a infância como Primeira Idade e nem tão quanto a fase adulta como Segunda.

A tal “Melhor Idade” também não me soa tão “melhor” assim. Parece-me que admite um pressuposto que há uma “Pior Idade”, antes dela.


Agora, o termo que realmente não me agrada é o tal “Idoso”, este, aos meus ouvidos ignorantes, soa quase pejorativo.


Se pudesse criaria um termo próprio para definir a idade “desta faixa etária”*, chamaria de “Mestre”.

* Sinto muita dificuldade em determinar qual a classificação em idade desta faixa etária, já conheci idoso de 20 anos e também jovem de 60. É muito relativo!

A “criança” me remete a inocência e travessuras; o “jovem” a: vitalidade e descobertas e o “mestre” àquele que tem mestrado da vida, que conquistou a sabedoria que nenhuma escola oferece em seus cursos: a experiência de viver, conquistada ao longo de cada ano, vivido e aprendido, um a um.


Eu fui presenteada, com a oportunidade de ter tido alguns “Analisandos Mestres” no meu consultório. Aqueles que ao término de cada sessão, o meu desejo era de ressarci-los por terem me proporcionado uma inigualável aula de vida e sabedoria.


É claro que traziam seus conflitos, às vezes suas tristezas, decepções, mas traziam também uma capacidade impressionante de auto-análise, de percepção de si mesmos que é resultado de autoconhecimento suado, conquistado involuntariamente através de suas experiências.


E sabem o que os levavam até um consultório psicanalítico? Simples: buscam qualidade de vida emocional, acreditam que se a vida foi boa, o melhor ainda está por vir, se não foi, começará a ser a partir de agora. Em outras palavras: nada está no fim, pelo contrário: é o início de uma fase privilegiada, em que as “cabeçadas” e os “murros em ponta de faca” já não são mais necessários.


Esta não é uma versão utópica da velhice, é uma condição totalmente factível, as limitações físicas continuarão, assim como um homem adulto tem dificuldades para dar as piruetas da infância (a flexibilidade de 35 anos não é mesma de quando tinha 5 anos), as nossas restrições físicas, de uma forma geral, podem ser retardadas ou amenizadas, mas não podem ser impedidas. Também se aplica a estética, beleza física. Uma jovem senhora de 50 anos deve procurar sentir-se bonita para sua idade e não lamentar a beleza perdida dos 15 anos.


Há um site muito interessante voltado especialmente para a “Comunidade Mestre”, que quando começamos a ver tudo o que esta turma faz e registra lá, dá uma inveja louca: http://www.maisde50.com.br/ .


Usufruir do que temos de melhor, seja em lá qual for a fase de nossas vidas, é o grande propósito, e o “Mestre”, entre outras capacidades, têm a Sabedoria (com “S” maiúsculo, porque não se adquire em livros), a complacência, a facilidade do perdão (porque já conhece seus benefícios), etc, etc.


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Obesidade sob a ótica Psicanalítica

No Brasil, 40% da população têm o diagnóstico de excesso de peso, a maior incidência está entre os adultos, e entre estes, as mulheres. As maiores causas apontadas: sedentarismo, comilança e stress, depois em menor escala: distúrbios orgânicos que levam involuntariamente ao aumento de peso.

A Psicanálise não se atém ao ponto de vista estético, físico/ patológico, mas sim a representação simbólica da obesidade e os fatores psicoemocionais que levam a ela. Hoje (nem sempre foi assim) a sociedade sugere que o modelo idealizado é ser magro, e isto coloca esta população de 40% numa condição marginal aos padrões ideais. No entanto, para a Psicanálise a obesidade só se classifica como um sintoma, a partir do momento que incomoda ao próprio sujeito, do contrário, não.

“Comer somente o necessário” está na contramão da programação genética humana, quando pensamos que descendemos de uma civilização primitiva, em que a regra máxima era comer, armazenar energia, para garantir a sobrevivência até a próxima oportunidade de refeição.

É muito importante explicar que traçar o vínculo acima não deve servir para legitimar a compulsão pela comida, mas sim para reforçar que a luta contra a compulsão deve ser intensificada porque estamos enfrentando, inclusive nossa própria natureza, obsoleta para nossa realidade, já que hoje o alimento está disponível em maior escala que na pré-história dos antepassados.

A grande questão para quem sofre deste tipo de compulsão, ou seja, para quem sente a necessidade “desnecessária” de comer, é perguntar-se: por que estou comendo, o que estou tentando saciar, já que a fome não é?

Parece uma disposição óbvia e por isto ineficaz, e admito que para uma grande maioria, de fato é. Mas questionar-se é o mais importante e o primeiro passo para a compreensão deste “sintoma psicológico”.

Dentre as respostas sob a ótica Psicanalítica podem estar (alguns exemplos hipotéticos):

- um mecanismo de defesa, criado a partir de um evento traumático, quando há a necessidade de se pôr a margem desta sociedade, a negação em fazer parte dela;
- autopunição, usar o próprio corpo como forma de castigar-se inconscientemente por algo;
- tentativa de saciar uma fome não orgânica, mas emocional. Comer para tentar preencher um “espaço vazio”;
- comer como forma de prazer, porque outras formas são ineficazes ou inexistentes;
- conflito inconsciente, arraigado a partir da infância, já que quando se é bebê ou até poucos anos de idade, ser “gordinho” é bonito e “sinal de saúde”, de repente, deixa de ser, e vêm os regimes. Isto, além de ilógico, é cruel.

Um exemplo prático, dos exemplos acima é: quando se faz uma cirurgia para redução de estômago, é imprescindível o acompanhamento psicológico, não só para ajudar na elaboração (idéia de si mesmo) da nova forma física, mas para impedir que outros transtornos tenham início. Se, comer constitui a principal fonte de prazer e ela é inibida, isto pode resultar numa inexplicável depressão.

Bem, as abordagens acima, são apenas para ilustrar como os fatores psicoemocionais podem influenciar, quando o excesso de peso é indesejado pelo sujeito.

Diferentemente dos preceitos sociais, a Psicanálise não classifica padrões e nem julga modelos, ela busca fazer com que o sujeito tome contato, identifique-se e harmonize-se com seus próprios desejos, neste caso, sejam eles: “gordo ou magro”.