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emcional.

Os textos não têm a pretenção de orientar, mas sim de poder oferecer uma alternativa de interpretação.
Sinta-se a vontade para opinar, contestar e discutir. Aqui, o que você pensa, será bem vindo!

Abraço,

Lindalva Moraes Pereira
Psicanalista –
SJCampos

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quarta-feira, 17 de março de 2010

"MEDO"



Entrevista concedida, em 11/03/2010, a estudante de Jornalismo (Universidade do Vale do Paraíba), LUANA LAZARINI LOUREIRO.





LL) Até que ponto o medo é benéfico e quando ele passa a ser prejudicial?
LM) O medo é benéfico quando serve a seu propósito de existir: pôr o sujeito em alerta na eminência de qualquer risco, intensificar sua atenção frente aos perigos, do menor ao maior deles. E ele passa a ser prejudicial quando transcende este propósito, a ponto de interromper ou inibir o desenvolvimento da vida do indivíduo; quando o medo passa a ser maior que a capacidade de enfrentamento.



LL)Para que serve o medo?
LM) É importante ressaltar que o medo naturalmente faz parte da nossa estrutura psíquica e deve ser respeitado como um dos nossos mais importantes mecanismos de proteção e sobrevivência; ele tem como finalidade preservar a vida. Alguém com ausência absoluta de medo não é corajoso, é patológico. Um suicida potencial. 


LL) O que faz a pessoas sentirem medo?
LM) Há duas respostas para esta pergunta:
- o primeiro sentido está muito relacionado à características de ordem antropológica e social. Quero dizer com isto, que as razões preponderantes que remetiam as pessoas ao sentimento do medo há 20 anos atrás, não são as mesmas de hoje, que não serão as mesmas das próximas décadas, possivelmente. Numa análise atual, podemos responder que como fatores externos, temos: o desemprego, a violência urbana, o trânsito, a fome, etc; e como fatores internos: a solidão, a rejeição, a carência afetiva, entre outros. Tudo isto representa o que mais tem remetido as pessoas ao sentimento de medo.
- a segunda está relacionada às funções cerebrais: o medo é acionado mediante um estímulo que chegará até o sistema neurotransmissor, que por sua vez encaminhará a mensagem ao setor responsável por acionar o alerta do medo.

LL) Medo é diferente de fobia?
LM) Na verdade o medo patológico é um transtorno fóbico.
O CID-10 (Código Internacional de Doenças) já tem classificação para vários destes transtornos que tem como sintoma principal o medo, estão contemplados no Grupo F40.

LL) O que você poderia diagnosticar como desencadeador de uma fobia? E de onde surgem esses sintomas?
LM) A primeira pergunta é complexa porque requer uma resposta bastante abrangente. Pode ser de origem pós traumática ou de origem remota (algo ocorrido na infância), eventos psicossomáticos, violência, negligência afetiva, mudança drástica de rotina, muitos são os fatores que podem desencadear uma fobia, e isto está relacionado ao indivíduo e não à exposição dos fatos, ou seja, o mesmo fator que para uma determinada pessoa não teve nenhuma representatividade, para outra pode ter sido marcante.
Os sintomas podem ter relação direta com os fatores geradores (causas) ou não, e neste caso requer uma cuidadosa investigação retroativa.

LL) Numa visão geral, o fato de enfrentar o objeto da fobia diminui ou aumenta o medo?
LM) Há grande relatividade sobre o comportamento das pessoas, mesmo as que se classificam dentro de um mesmo quadro psíquico, mas a tendência é diminuir, pois se busca promover o enfrentamento e a dissolução da causa. É necessário ressaltar que esta resposta é simplista mediante ao processo real, que nem sempre é fácil ou rápido de ser concluído.

LL) No momento, você consegue analisar se as pessoas estão mais propensas a fobias?
LM) Sim, fatores como estresse, estafa, instabilidade econômica, concorrência, isolamento social, e muitos outros, contribuem bastante para o surgimento de patologias psicoemocionais. E em contra partida ainda não faz parte da nossa cultura estarmos atentos para os sintomas, ainda é comum negligenciar sentimentos como se não repercutissem no nosso equilíbrio.

LL) Existem casos de fóbicos em que as consequências dos seus medos foram extremas (suicídio, isolamento total, etc.)?
LM) Qualquer transtorno psíquico sem tratamento tende a se potencializar, no entanto, não há grande incidência de suicidas. Já os demais desdobramentos, sim: isolamento, improdutividade, desenvolvimento de outros transtornos, etc.

LL) Como perceber se alguém conhecido tem medo/fobia (sintomas)?
LM) Quando o medo deixar de ser uma característica secundária e passar a aparecer demais, impedindo o andamento normal da vida do sujeito. Inibindo sua capacidade de se mostrar feliz, privando-o de coisas ou eventos que outrora não ocorreria.

LL) Como a família pode ajudar no caso de uma pessoa com medo ou fobia?
LM) Não menosprezando seus sintomas, buscando a interpretação que não se trata de uma opção de comportamento, mas sim uma doença, respeitando, acolhendo, buscando tratamento adequado, não impondo o enfrentamento torturante.

LL) Qual o primeiro passo para o tratamento de doentes fóbicos (confrontação do medo, medicação, etc.)? Quais os tratamentos existentes ?
LM) Há casos que a confrontação com o medo pode ser muito radical e cabe ao profissional de saúde mental definir a melhor maneira de fazê-lo, se necessário for. Já a medicação pode ser bem vinda em casos acentuados/ definidos e pode contribuir para inibir os sintomas, enquanto se trata a causa. É importante ressaltar que o profissional apto indicado para medicamentar estes transtornos é o Psiquiatra.
Sobre os tratamentos: Psiquiatria aliada a Psicoterapia costuma apresentar bons resultados. Ambos disponíveis, inclusive, na rede pública.

LL) Quais são os principais tipos de medos? (generalizados, específicos).
LM) Os patológicos são:
- Agorafobia, Sociofobia, Pânico, entre outros.
Os de menor gravidade são:
- Medo de falar em público, de dirigir automóveis, de instabilidade econômica.

LL) Quais são os que mais atingem a população hoje?
LM) O Pânico e a Sociofobia; fora das classificações patológicas, também teremos o medo de falar em público. Se quando você formulou a pergunta te ocorreu: medo de baratas, medo de dirigir ou coisa parecida, está enganada. Com fundo patológico, gente tem medo de gente!

LL) Qual tipo de medo mais exótico que a sra. já tratou?
LM) Gente com medo de gente!

LL) Como podemos utilizar o medo como aliado para o sucesso?
LM) Enxergando o medo como cautela e prudência, transformando-o em ferramenta de cálculo do custo/ benefício de nossas atitudes.

LL) Na Administração, a tentativa e o erro fazem parte da aprendizagem. No entanto, pessoas e empresas vêem o erro como algo ruim. As pessoas têm medo de errar/ fracasso? (falar em público, por exemplo)
LM) Não aprendemos a errar, somos instruídos para sermos acertivos sempre. Logo, é certo que as pessoas temem o erro e quando acontecem, se possível for, o negam até a morte.
O método empírico que você cita, se aplica inclusive na criação de um filho. Não há fórmula ou receita, "as crianças em pleno século XXI, insistem em vir sem manual de instrução".
As empresas mais arrojadas, com metodologias revitalizadas, já estão mudando seus conceitos acerca disto, na verdade "errar" passa a contar menos, quando se tem atitude. Estão também preocupadas em como anda seu clima organizacional, porque já entenderam que isto reflete diretamente na produtividade das pessoas.

LL) Alguns pais criam filhos como campeões e os recriminam se eles erram. Eles devem ser os melhores, tirar as melhores notas, serem os melhores nos esportes, etc. Em que medida essa cobrança excessiva pode acarretar inseguranças e medos?
LM) Excelente questão! Respondo que na medida máxima!
Os pais agem desta forma por muitas razões, a melhor delas é pensando no melhor para seus filhos, acreditando que preparando-os para serem "os melhores", garantirão sua felicidade. Ilusão, equívoco. Somos humanos, e errar faz parte da nossa natureza: "errar é humano". Insistir nesta premissa é efeito contrário: criar filhos frustrados e incapazes. Ao invés disto deveriam ensinar seus filhos a encarar com naturalidade seus erros e identificar qual a melhor maneira de aprender com eles.
Outra razão, a pior delas: é que filhos representam inevitavelmente projeções de seus pais, ou seja, deverão ser o que os pais não foram, deverão conquistar o que os pais não foram capazes, ter a chance que não tiveram, deverão ser razão de orgulho e satisfação, etc. Com isto, promovem a miséria emocional de seus filhos, pensando exclusivamente em si mesmos, ou seja, querem provar que se tivessem tido as chances certas poderiam ter sido o que não foram. Esta é uma trama inconsciente, mas acontece com uma freqüência assustadora.

LL) A obsessão pode virar um medo?
LM) As obsessões podem virar muitas coisas, inclusive medo.