BEM VINDO!

Este é um espaço criado para que possamos trocar informações sobre:

- Psicanálise;
- Comportamento Humano;
- Patologias Psicoemocionais;
- Sentimentos: que constroem e que destroem;
- Relacionamentos;
enfim, toda abordagem que puder levar informação sobre melhor qualidade de vida
emcional.

Os textos não têm a pretenção de orientar, mas sim de poder oferecer uma alternativa de interpretação.
Sinta-se a vontade para opinar, contestar e discutir. Aqui, o que você pensa, será bem vindo!

Abraço,

Lindalva Moraes Pereira
Psicanalista –
SJCampos

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

NARCISISMO NAS RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Uma mocinha (imagino eu) muito simpática, chamada Andressa, entrou em contato comigo por e-mail, pedindo que se possível lhe escrevesse algo sobre “Narcisismo nas Relações Profissionais”. Achei o tema bem pertinente, a última vez que escrevi sobre o Narcisismo foi um artigo técnico, que hoje ao lê-lo até eu mesma senti dificuldades em entendê-lo e encontrar nexo.


Antes de colocar o perfil diagnóstico do Narcisista num cenário profissional, vamos definir o que seria isso. Narciso é figura da mitologia grega que passou a vida a contemplar sua própria beleza e morreu em função dessa contemplação.

A Psicanálise emprestou o tema, sendo usado por Freud pela primeira vez em 1910, para ilustrar a personalidade de quem tem, não só sua autoimagem, mas principalmente todo o seu ser, auto exaltado, enaltecido por si próprio. Trata-se de que o principal investimento de interesse e apreciação acontece em torno preponderantemente do seu próprio Ego.

O narcisista acredita seriamente que as atenções do mundo devem estar voltadas para ele, os principais fatos que acontecem ao seu redor, estão todos relacionados a ele, e por fim, que a maior contribuição que ele poderia ter dado ao mundo foi ter nascido; essa última foi sarcástica, mas não duvidosa.

Esse tipo de personalidade não nasce simplesmente formada, acredita-se que acaba sendo fruto de investimento emocional desmedido na infância, como por exemplo: a adoração sem limites da mãe ao filho ou de uma predileção forte ente os irmãos; ou então o contrário disso: experimentou desde muito cedo a rejeição e o não reconhecimento, transformando-se em própria fonte de admiração. Enfim, podem ser vários os fatores contribuintes para a formação desta personalidade, o fato é que ele acredita não só diferente do resto da humanidade, mas também melhor que eles.

O Narcisista no cenário profissional pode se manifestar de várias maneiras, mas em todas elas será trabalhoso e penoso lidar com ele. Vamos desmembrar algumas possibilidades:
- se ele é acompanhado de senso moral, ele buscará através de meios lícitos o seu destaque; ciará algumas inimizades, sofrerá com isso, mas dificilmente conseguirá mudar seu padrão de comportamento. Isso porque “os confetes” são o alimento do Ego do Narcisista;
- se for o contrário, e não menos comum, e ele for desprovido de ética ou pudor, conduzirá suas atitudes de forma ardilosa e meio sem noção para alcançar seus objetivos. Este perfil tende a estar ainda mais em evidência porque facilmente desperta o amor e o ódio dos parceiros;
- em linhas gerais, pode ser esforçado, no entanto, com dificuldades em trabalhar em grupo, porque isso significaria dividir ou louros; numa confraternização a piada mais engraçada precisa ser dele; assim como o destaque de mais inteligente, mais bonito, mais popular, mais, mais, mais...

Contudo, note que o Narcisista não é nenhum psicótico, ele sofre com sua condição, quando se sente menosprezado ou não reconhecido como acha que deveria; normalmente sofre de solidão e incompreensão, porque acredita e sente ser único; sua vida costuma dar muito mais trabalho que os demais perfis, pois ele precisa ocupar o lugar de destaque sempre.

Rivaliza com facilidade com os parceiros, está sempre em busca de ascensão, não por ambição, mas por holofotes. Normalmente os encontraremos ocupando lugares de poder e destaque; são previsíveis por serem regidos pela demanda egóica.

Se por ventura tiver um chefe Narcisista nunca chegue com uma ideia melhor que a dele, e se chegar, faça-o acreditar que partiu dele, que dará mais certo.

No mais, são pessoas comuns, que podem ser dóceis e amigáveis como qualquer outra, apenas com uma demanda um pouco diferente dos demais. Se todos nós precisamos de massagem no Ego para nossa autoestima estar em alta, o Narcisista precisa muito mais, e em alguns casos acentuados transformam suas vidas num verdadeiro cativeiro.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

TRANSTORNOS ALIMENTARES E DIETAS

É certo que é redundante escrever sobre a ditadura da beleza que configura e parametriza, sobretudo as mulheres, o quanto elas devem pesar ou a definição da sua aparência, como: cumprimento ideal de cabelo, cor dos fios, corte, roupas, sapatos, etc. Mas ainda assim há tanto o que debater sobre o assunto, porque ainda há instituído um cativeiro tão severo em torno deste tema. 


Veja bem, nós não priorizamos a qualidade de vida ou a saúde, priorizamos os critérios de aparência e beleza, ignorando totalmente que correspondemos a biótipos diferentes, dos quais não correspondem necessariamente a magreza.

É uma luta incessante contra a balança, se submetendo a um conjunto de árduas privações, monitorando dia a dia se há conquistas a serem celebradas e estas demoram a aparecer, quando aparecem.

Corpo saudável é aquele que se condiciona a se alimentar bem e direito, inclusive com concessões de prazeres e vontades, não através de fome e desejos vetados o tempo todo e quando se autorizam, arrebentam de comer só o que nos remete ao prazer gastronômico.

Desde cedo estabelecemos nossas fontes de prazer que nos guiarão para sempre para nos proporcionar agrados e compensações. Fazemos isso erroneamente com a comida. Este mecanismo equivocado substitui, apenas enganosamente, um abraço, um elogio, um reconhecimento, uma atenção não recebida.

O centro das nossas emoções funciona como um contador e cria um balanço que se divide entre ativo e passivo emocional. Quando nos submetemos a privações ou sacrifícios recorrentes, restrições de prazer, criamos passivos emocionais que pedem por compensação para equilibrar a balança. E a fonte de prazer mais imediata e disponível é quase sempre a comida. Está ao nosso alcance, não depende de mais ninguém e oferece prazer ao paladar, portanto, neste caso a compulsão será sempre por coisas saborosas, guloseimas e não necessariamente vegetais ou cereais.

Também há a compulsão desencadeada pelo sentimento de vazio, então a comida funciona como sensação de preenchimento e saciedade. Assim como no caso anterior é apenas uma sensação momentânea e passageira, que vem seguida de culpa, mal estar e arrependimento.

Devemos relacionar a comida principalmente a sobrevivência do corpo e subsistência do organismo, e não prioritariamente ao prazer. As dietas, quando não são loucas e desmedidas, mas sim funcionais e fundamentadas, funcionam muito. Mas o que ninguém percebe é que cada dieta corresponde e funcionará melhor de acordo com cada perfil psicológico, note que não estou falando necessariamente de corpo, mas de funcionamento psíquico. Há o que funciona com cada um como haverá o que não funciona e não adianta o milagre que a dieta promete.

Vamos aos exemplos que fica mais fácil de compreender. A dieta dos pontos do Dr. Alfredo, não vou entrar em detalhes do que se trata, porque o objetivo não é fazer apologia a nenhuma dieta em específico, mas neste exemplo a grande sacada é ter o real controle de absolutamente tudo o que se consome, tudo o que vai boca a dentro deve ser computado para não ultrapassar o limite  de pontos permitido. Portanto, esta dieta é para o perfil que seja minimamente disciplinado e se entusiasme com desafios. Você pode comer de tudo, no entanto, a única restrição é o limite dos pontos.

Tem dieta da proteína, do chá verde, do carboidrato, enfim, uma infinidade delas. No entanto, entre todas as melhores são aquelas que sugerem reeducação alimentar, algo que você possa dar continuidade após ter atingido seu objetivo, é por isso que as dietas restritivas demais levam ao emagrecimento, mas também traz junto o efeito sanfona.

Não há milagres, nem soluções mágicas, nem instantâneas, exercício físico desde que mundo é mundo é importante não só para manutenção do corpo, mas também para o cérebro; alimentação sensata, é aquela que te satisfaz, não impõe sacrifícios intensos e não te transforma em refém.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

MEDOS E FOBIAS

Medo e fobia estão relacionados, tanto quanto não estão. O Medo faz parte da constituição natural dos nossos mecanismos de defesa e sobrevivência, ou seja, ele é necessário a preservação da vida, proteção e bem estar. Já a fobia ou o Transtorno Fóbico, é o medo no formato da intimidação emocional que não tem necessariamente uma utilidade real, é o medo anormal. E quando este medo fóbico toma proporção que começam a afetar a vida do sujeito, vira uma psicopatologia, inclusive com registro na Classificação Internacional de Doenças (CID). 

Tendo explicado melhor a função do medo no nosso aparelho psíquico, podemos entender melhor e de forma isolada os Transtornos Fóbicos, que por sua vez, se dividem em três principais quadros:

- Agorafobia;
- Fobia Social;
- Fobia Específica ou Fobia Simples.

A primeira, a Agorafobia, que significa medo da ágora (definição dada às praças gregas que também tinham seus mercados), tem a ver o medo da morte, relacionado a falta ou dificuldade de socorro, que pode ser seguida de Ataques de Pânico, ou seja, o sujeito começa a enxergar risco de morte em circunstâncias que eram para ser habituais, mas passaram a representar desafios sérios. Lugares com excesso de público, ou com layout de um labirinto, sem muitas portas e janelas, são gatilhos para quem sofre de Agorafobia. Estes, normalmente não toleram se verem sozinhos, precisam estar acompanhados o tempo todo, incomodam-se em estar num lugar onde desconhece saída ou é de difícil acesso, elevador, lugares fechados, avião, etc.

Os ataques de pânico promovem sintomas reais, que podem ser: taquicardia, sudorese, oscilação da pressão arterial, náusea, no entanto, quando estes sintomas (que existem de fato) são investigados não levam a nenhuma causa orgânica.

Para entender melhor como isso acontece, veja como o medo é acionado no nosso cérebro:

O Sistema Límbico funciona como um banco de memória, que juntamente com a Amígdala relaciona as situações registradas de perigo e aciona o Hipotálamo que preparará o organismo para reagir.
No caso do medo, ele pode ter seu registro através de aquisição, aprendizado ou trauma. No entanto, se por algum motivo este registro foi feito de forma equivocada e assim ficou armazenado, seria necessário descontruir esta concepção de perigo.













A Fobia Social tem a ver com o medo da exposição, que impinge o medo do constrangimento, humilhação e  rejeição. Pessoas que sofrem de Fobia Social não toleram o convívio em grupo, conhecer ou estar em contato com pessoas desconhecidas, fazer refeições em lugares públicos e o pior dos pesadelos seria representado por um discurso para uma plateia. É como se o risco da exposição negativa existisse o tempo todo, quando estão fora do seu local eleito como seguro. E por sua vez, as consequências disso lhe parecem algo grandioso e intransponível.

A Fobia Específica, como o nome mesmo diz, tem nome, razão de ser, e normalmente é possível inclusive identificar quando o medo se instalou e quando ocorreu o primeiro evento fóbico. Por exemplo, uma criança que se viu sozinha num ambiente onde haviam baratas, pode quando adulto desencadear esta fobia, pois associou o fato de se ver sozinho, obrigado a enfrentar algo maior que sua capacidade. Também alguém que sofreu um acidente de carro, e não consegue mais andar de automóveis.

Tem um exemplo que eu gostaria de citar, porque ilustra e distingue bastante o que é fobia do que é mania. É o caso de uma moça com fobia de baratas que eu acompanhei. Assim falando parece algo pouco expressivo, alguém que tem medo de um inseto peçonhento e que é incapaz do enfrentamento. Mas de jeito nenhum pára por aí. Essa moça tinha a necessidade de lavar a casa toda com água sanitária todos os dias, lavava os muros da residência para que o inseto não viesse do vizinho, não abria janelas, por medo de entrassem voando, não dormia sem antes inspecionar em cima dos guarda-roupas, não sentava no sofá e relaxava no encosto, porque temia uma barata descer pela parede e se emaranhar nos seus cabelos. Isso é Fobia!

O Fóbico não possui um estereótipo específico, mas é possível traçar um perfil mais comum, normalmente são pessoas que receberam uma educação muito rígida, que são muito preocupadas com julgamento alheio, perfeccionistas, possuem alto senso de responsabilidade. Também é válido citar que há contribuição de fatores biológicos, já que se concluiu que o desnível das substâncias de serotonina e noradrenalina são preponderantes para desencadear os sintomas.

Foi através das descobertas da possibilidade de contribuição genética, que chegaram a um tratamento mais eficaz contra as fobias, através das novas gerações de antidepressivos.

Não há um padrão estabelecido para o tratamento de Fobias, no entanto, existem alguns parâmetros:

- combater os sintomas com estados contrários;
- controlar os sintomas e se submeter gradativamente ao enfrentamento;
- analisar e descontruir seu fundamento.

Existem inúmeras fobias nomeadas e muitas outras ainda não classificadas, justamente porque se confundem com manias e cismas do sujeitos que se incorporam ao seu jeito de ser e não são consideradas de fato patologia. Ex.: Triscaidecafobia (fobia ao número 13).

A conclusão é que Fobia não é normal e não deve ser tratada como tal, ela inibe a vida do sujeito, impõe restrições e submete ao sofrimento. Ela tem tratamento, tanto farmacológico para controlar os sintomas, como terapêutico para eliminar a causa.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

H1N1


Faz tempo que não escrevo e resolvi escrever não um artigo ou sobre alguma psicopatologia nova, mas para compartilhar um evento pessoal.

Eu tiro em média 20 dias de férias por ano, divididos em 5 dias em julho e 15 dias em dezembro.  Não é muito não é? Enfim, nestas férias de julho fui acometida pela tal H1N1. Já na sexta-feira (dia 20), último dia trabalhado já não estava me sentindo bem, com uma forte crise alérgica, o que me obrigou a tomar uma grande quantidade de anti-histamínico, que baixou minha imunidade e propiciou posteriormente contrair essa gripezinha.

Hoje eu já sei que com a descoberta precoce e com o  tratamento correto, não oferece grande perigo.

Mais essa história toda, além de mudar todos os meus planos de férias, inclusive de viagem, me deixar de molho, o que de certa forma foi bom, porque pude ler meus livros, navegar e escrever sem dor na consciência por não estar dando atenção para as crianças, marido, casa, cachorro, me expos a vários sentimentos e situações inusitadas que eu gostaria de compartilhar.

Primeiro, tamanha a insistência da minha secretária do lar em que a minha crise estava incomum e que eu deveria procurar um médico, lá fui eu, ou melhor: nós, arrastei meu filho mais velho comigo, afinal fazer coisa  chata acompanhada fica” menos pior”.

Chegando no Pronto Socorro, fui espantosamente bem atendida, e faço questão de mencionar o nome da médica, Dra. Carina Patrícia Campos, aproveito para agradecer imensamente sua preocupação e atenção comigo. Depois é que fui descobrir que ela é Clínica Médica e também Geriatra. Acho que de agora em diante, só vou querer me consultar com Geriatras.

Bem, quando eu expliquei os meus sintomas e ela fez o exame clínico, pediu radiografias do pulmão. Na hora da avaliação dos resultados, eu toda engraçadinha, e até aquele momento, de verdade nada preocupada, disse:
- E então Dra.,  tá bonito, não deu nada, posso embora não é?
E veio a resposta séria:
- Não tem nada bonito não, estou preocupada, há infiltração espalhada nos dois pulmões.

Azedou! Fechei a cara e também fiquei preocupada. A falta de informação nos faz pensar numa porção de coisas ruins e desnecessárias. Aí o processo era medicar na hora para inibir o principal sintoma, que era uma tosse agressiva, depois fazer novos exames (de sangue) para constatar o vírus.

Quando foram aplicar a medicação: primeiro foi a retirada de sangue e depois a aplicação da medicação Agora uma dica: quando eu fui tomar medicação (Dipirona com Decadron), começou a doer pra valer, e eu fiquei firme, vou posar de valente, ficar reclamando de dorzinha não é minha cara. Estúpida! A veia havia escapado da agulha e a medicação estava fora. Portanto, aprendi a não bancar a valente burro(a).

Bem, passada a parte do soro e remédios, eu precisava ir embora, pois já estava lá a quase duas horas e o resultado do exame não ficaria pronto no mesmo dia.

Aí vem as informações que só quem passa por isso é que fica sabendo: para ser liberada, precisa responder um questionário para a Vigilância Sanitária com o objetivo de controle epidemiológico, por fim, não foi necessário eu concluir o preenchimento sem esperar pelo resultado do exame de sangue.

Em seguida vem o problema da medicação específica para H1N1, já que a Dra. Carina não estava propensa a me liberar sem a medicação. Não disse que ela era ótima! O tal Tamiflu, não é comercializado, a Presidenta proibiu a venda em farmácias e agora é oferecido somente por órgãos públicos. Justamente para que o Governo possa manter o controle de uma possível epidemia. 

Já eram por volta de 19h, os postos de saúde já estavam fechados e nós conseguimos um encaminhamento para retirada da medicação. Surpreendentemente chegando no Hospital Público também fui super bem atendida. A moça da farmácia não me pareceu muito certa do juízo, mas nem por isso menos atenciosa. Em função de me ter sido fácil a aquisição da medicação e em função disso me senti mais segura e respeitada nos meus direitos, me faltam argumentos para recriminar a decisão da Dilma.

Agora vamos ao efeito emocional dessa zorra toda: começa por ter que sair  do Pronto Socorro de máscara e aí as pessoas já te olham com estranheza de quem veem um Alien perigoso. Entrei no carro rapidinho e subi os vidros, aí chegando em casa tem que explicar tudo para a família e até para quem não é da família. Essa parte é um saco! Você descobre que tem gente sem noção em todo lugar e nas horas mais improváveis, prontas para superestimar e sensacionalizar (acabei de inventar este verbo, ele não existe ok?) o problema. Isso é irritante!

Depois você explica a família, e intimamente, nutre a esperança singularmente humana de que irão se importar, manifestar preocupação e apreço pela sua vida. Mas atenção! Todas essas manifestações, precisam vir no formato que você espera, senão vem carência e frustação na certa! E, não veio, lógico!

Como é engraçado o quanto a gente vive a espreita de uma desculpa, uma justificativa qualquer para arrancar dos nossos eleitos, sempre mais atenção e afetividade. Somos sanguessugas insaciáveis e carentes de amor.

Eu deveria estar preocupada em usar da melhor forma possível o meu dia de restabelecimento, mas na verdade ele já começou chato ao descobrir que o meu marido não se preocupou com o meu café da manhã. Tá bom, agora que já são 16h eu já acho graça na história, mas 11h da manhã não tinha nenhuma.

Quando se está doente por alguma razão você quer se sentir especial, cuidado, amado. Alguns até “aproveitam” estas circunstâncias para depositar toda a sua carência afetiva nestes episódios. Isso é natural, apesar de nem todos os médicos estarem aptos a lidar com isso. Mas não podemos exagerar na dose, não é?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

XUXA E ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA



Sempre que surgem assuntos polêmicos ou que podem despertar muita diversidade de opinião pública eu procuro me abster e não comentar. No entanto, tem me ocorrido cada vez mais, que essa minha auto preservação também tem a ver com omissão, com evitar conflitos com pontos de vista diferentes dos meus. Aí, resolvi começar a me posicionar.

Sobre o assunto Xuxa e seus episódios de violência sexual na infância, não gostei!

Se o objetivo era contribuir para que as pessoas olhem com mais atenção para seus filhos, busquem neles qualquer sinal de introspecção e tristeza, se algum adulto que convive com suas crianças não lhe parece tão confiável assim, enfim, se a intenção era alertar ou apresentar cumplicidade junto a outras vítimas, então deveria ter vindo junto com atitude.

Atitude de dizer que quando se deu conta de que já podia algo frente a Justiça fez por onde busca-la, de dizer que ficar com o pesar de uma vítima só serve para consolidar uma ferida sem cura.

Monstros às vezes saem das telas da TV e vivem entre nós, mas quando descobertos devem ser tratados como tal. Deflagrados, desmascarados e punidos como produtores de fatalidades que são.

O aparelho psíquico tem muita dificuldade em lidar com a emoção da injustiça, da impotência. Transferir isso para a ordem da fatalidade, e contra esse tipo de ocorrido não há reparação, cabe partir para o que é possível fazer para a punição e impedimento de qualquer reincidência que esse indivíduo possa ter. Isso é o que cabe a um adulto vítima fazer.

Infelizmente o depoimento, como foi feito, de uma figura popular como a da Xuxa, inclusive, uma formadora de opinião, ficou com interpretação de que uma vez acontecido não há muito o que fazer, é ficar com o pesar e a dor por uma vida inteira. Se “até com ela aconteceu” e as pessoas saíram ilesas, o que será dos “mortais?” Eu ouvi exatamente isso no consultório, de uma analisanda.

De Rainha dos Baixinhos, esquecida pela mídia, para se emplacar como mártir dos adultos, essa declaração precisava vir acrescida de algo mais efetivo. Um crítico da UOL escreveu que ela transformou os telespectadores do Fantástico em Psicólogos. Não estou de acordo. Nesse sentido achei bom, que as pessoas que idealizam demais os personagens de TV e que acreditam que os infortúnios só acometem “pessoas comuns”, vejam que é isso na vida real. Mas também penso que pessoas que ocupam papel de destaque na mídia, precisam tomar cuidado, inclusive na hora de seus “desabafos mais profundos (se é que se tratou disso).

Lamento pelo ocorrido, Xuxa! Mas se demorou tanto para vir a tona, poderia ter vindo com uma contribuição mais completa, que trouxesse esperança e não o sacramento de um sofrimento de uma pessoa imaculada. Tanta exposição para acabar servindo a um único propósito pessoal!

Perdoem-me a acidez do texto, mas meu foco é na propagação que tal declaração proporcionou nos sentimentos das pessoas que sofreram tal abuso. Só que curiosamente a repercussão negativa não foi abordada em nenhum programa Global.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A FUGA



Num tratamento psicanalítico é tão certo quanto ar que se respira, que num dado momento o evento da fuga irá se estabelecer, mas mesmo sendo tão óbvio, não há uma receita assertiva para se antecipar e ou evitar seus desdobramentos.

Basta o sujeito entrar em terapia (costumo dizer que há diferença entre "frequentar" e "entrar" em terapia), começar a se ver implicado numa posição que ele ainda não havia se colocado ou se ver responsabilizado de alguma forma, enfim, se houver contrariedade consciente ou inconsciente, pronto: ele irá fugir!

Algumas vezes o boicote a análise é sutil, outras vezes é proposital mesmo. A verdade é que a grande maioria não está preparada para um processo de terapia emocional intensiva.

Recebo muita gente querendo apagar incêndio, como se o consultório fosse um pronto socorro emocional, e depois sanada a questão pontual, a terapia passa a ser supérflua e desnecessária. Mas não é assim que funciona, num acompanhamento terapêutico tiramos muita coisa do lugar, levantamos o tapete e propomos uma varredura para que saia tudo o que está lá embaixo. 

O objetivo de autoconhecimento é sério e traz incontáveis vantagens se tratado com a relevância que merece.

Já dá até pra ficar mais descolado com algumas terapias, quando estão atingindo o ponto nevrálgico (que normalmente é sinônimo de “chato” para o analisando), vai rolar uma fuga, mas mesmo sabendo, não há o que ser feito, retroceder para tornar as sessões agradáveis e prazerosas, não é o objetivo. 

Busco avisar bem avisado logo na entrevista: o setting analítico não é necessariamente um local de desabafo, aqui é um lugar de literalmente falar o que quer e ouvir o que não quer; um acompanhamento pode se tornar difícil e é aí que será necessário bancar a permanência; mas não adianta. Eles fogem mesmo!

Confesso que grande parte das vezes eu abstraio e considero parte do processo natural, mas algumas vezes isso me aborrece profundamente porque deu trabalho chegar até ali, galgar os degraus até vislumbrarmos respostas importantes, são conquistas que acabam por não se efetivar porque a propensão à fuga é maior que o meu apelo pelos resultados.

Ainda devo considerar um ganho quando a fuga se estabelece através dos meios amigáveis, porque muitas vezes o sujeito entende como necessário o rompimento, acontece a transferência, ele se indispõe com o analista para que possa subsidiar a sua fuga. Como dizem os adolescentes: “aí é osso”!

O setting analítico não deve ser visto como pronto socorro emocional ou pelo menos não só isso. Um acompanhamento terapêutico deve ser interpretado como um investimento definitivo e sério sobre sua qualidade de vida emocional.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

DIA DAS MÃES



Ontem foi Dia das Mães. Minha opinião sobre a comemoração desta data oscila bastante, ora penso que é o absurdo da fomentação comercial, ora penso que o ser humano é por natureza relapso com as suas considerações de reconhecimento e gratidão, então se for necessária a invenção de uma data para que isso ocorra, que haja.
Alguns fatos me chamaram a atenção e me instigaram a compartilhar meu ponto de vista. 

Recebi várias mensagens de saudações, retribuí a todas com satisfação, até que uma me chamou a atenção, era de uma conhecida que colocou no e-mail algo que remetia para interpretar que finalmente ela se sentia apta a desejar um feliz dias das mães sem sentir recalque nenhum por isso, porque agora ela era mãe.

Aí fiquei pensando o quão equivocado pode ser o desejo da maternidade, um filho não é e não pode ser nunca objeto de realização pessoal de ninguém. É muita responsabilidade e também muito injusto para uma criança nascer para atender o projeto de vida de alguém.

Filho não cura doença, não salva casamento, não muda personalidade, não é recurso financeiro e não faz mágica na vida de ninguém. E se alguma coisa disso ou tudo isso acontecer, ótimo, pode ser tratado como consequência, mas não podemos gerar um filho tendo traçado alguma coisa assim como objetivo.
Gerar um filho é bom, parir um é bom também, mas a grande experiência da maternidade é o que vem depois disso: criar, amar, ensinar, aprender, apostar, confiar, defender, amparar, disciplinar. Todo esse investimento é que representa a grandeza da maternidade, não é exibir barriga crescendo e fazer parto cesariana (nada contra cesariana, bem como nada a favor).

E criar um filho é investimento sem garantia ou espera de retorno. Acontece através do método empírico, aquele que é por tentativa e erro, tentamos acertar, erramos, depois acertamos e assim segue. Não tem como fazer a opção de ter um filho e pensar em apresentar-lhe a conta lá na frente. O investimento é seu! Ele corresponderá por consequência, não por obrigação.

É cuidar, ensinar, proteger, tendo em mente que se tratará de um indivíduo independente um dia, com desejos próprios, que podem ou não (quase sempre não) corresponder aos seus. E você não poderá cobrá-lo de sua parte no acordo, porque não há acordo, o que há é uma proposta de alguém que julga ser capaz de oferecer algo construtivo a outro ser, e que através dele o mundo poderá experimentar ser um pouquinho melhor, se assim ele desejar.

E acredite: isso não é altruísmo. É uma manobra egóica disfarçada que se manifesta na pele de cordeiro. Sentimos prazer e satisfação ao vermos nossos filhos lindos, educados, recebendo seus diplomas desde o jardim de infância, depois se desenvolvendo de forma saudável e promissora. Nosso orgulho (que vem do “útero do ego”) vibra!

Não estou desmerecendo o amor de mãe, afinal sou mãe. Estou apenas dizendo para não nos iludirmos e nem nos envaidecermos com a maternidade. Ela é linda sim! Mas sua beleza não está num barrigão; não está em cumprir uma “sentença social”: que toda mulher nasce para ser mãe; não está nas projeções que fazemos sob uma vida que não nos pertence. Está na capacidade de doação, de investimento de amor.

Feliz a mãe que ama, só pelo fato de se ver mãe dentro das quatro paredes do seu coração, sem passar pelo holofote da vaidade.