BEM VINDO!

Este é um espaço criado para que possamos trocar informações sobre:

- Psicanálise;
- Comportamento Humano;
- Patologias Psicoemocionais;
- Sentimentos: que constroem e que destroem;
- Relacionamentos;
enfim, toda abordagem que puder levar informação sobre melhor qualidade de vida
emcional.

Os textos não têm a pretenção de orientar, mas sim de poder oferecer uma alternativa de interpretação.
Sinta-se a vontade para opinar, contestar e discutir. Aqui, o que você pensa, será bem vindo!

Abraço,

Lindalva Moraes Pereira
Psicanalista –
SJCampos

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segunda-feira, 28 de maio de 2012

XUXA E ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA



Sempre que surgem assuntos polêmicos ou que podem despertar muita diversidade de opinião pública eu procuro me abster e não comentar. No entanto, tem me ocorrido cada vez mais, que essa minha auto preservação também tem a ver com omissão, com evitar conflitos com pontos de vista diferentes dos meus. Aí, resolvi começar a me posicionar.

Sobre o assunto Xuxa e seus episódios de violência sexual na infância, não gostei!

Se o objetivo era contribuir para que as pessoas olhem com mais atenção para seus filhos, busquem neles qualquer sinal de introspecção e tristeza, se algum adulto que convive com suas crianças não lhe parece tão confiável assim, enfim, se a intenção era alertar ou apresentar cumplicidade junto a outras vítimas, então deveria ter vindo junto com atitude.

Atitude de dizer que quando se deu conta de que já podia algo frente a Justiça fez por onde busca-la, de dizer que ficar com o pesar de uma vítima só serve para consolidar uma ferida sem cura.

Monstros às vezes saem das telas da TV e vivem entre nós, mas quando descobertos devem ser tratados como tal. Deflagrados, desmascarados e punidos como produtores de fatalidades que são.

O aparelho psíquico tem muita dificuldade em lidar com a emoção da injustiça, da impotência. Transferir isso para a ordem da fatalidade, e contra esse tipo de ocorrido não há reparação, cabe partir para o que é possível fazer para a punição e impedimento de qualquer reincidência que esse indivíduo possa ter. Isso é o que cabe a um adulto vítima fazer.

Infelizmente o depoimento, como foi feito, de uma figura popular como a da Xuxa, inclusive, uma formadora de opinião, ficou com interpretação de que uma vez acontecido não há muito o que fazer, é ficar com o pesar e a dor por uma vida inteira. Se “até com ela aconteceu” e as pessoas saíram ilesas, o que será dos “mortais?” Eu ouvi exatamente isso no consultório, de uma analisanda.

De Rainha dos Baixinhos, esquecida pela mídia, para se emplacar como mártir dos adultos, essa declaração precisava vir acrescida de algo mais efetivo. Um crítico da UOL escreveu que ela transformou os telespectadores do Fantástico em Psicólogos. Não estou de acordo. Nesse sentido achei bom, que as pessoas que idealizam demais os personagens de TV e que acreditam que os infortúnios só acometem “pessoas comuns”, vejam que é isso na vida real. Mas também penso que pessoas que ocupam papel de destaque na mídia, precisam tomar cuidado, inclusive na hora de seus “desabafos mais profundos (se é que se tratou disso).

Lamento pelo ocorrido, Xuxa! Mas se demorou tanto para vir a tona, poderia ter vindo com uma contribuição mais completa, que trouxesse esperança e não o sacramento de um sofrimento de uma pessoa imaculada. Tanta exposição para acabar servindo a um único propósito pessoal!

Perdoem-me a acidez do texto, mas meu foco é na propagação que tal declaração proporcionou nos sentimentos das pessoas que sofreram tal abuso. Só que curiosamente a repercussão negativa não foi abordada em nenhum programa Global.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A FUGA



Num tratamento psicanalítico é tão certo quanto ar que se respira, que num dado momento o evento da fuga irá se estabelecer, mas mesmo sendo tão óbvio, não há uma receita assertiva para se antecipar e ou evitar seus desdobramentos.

Basta o sujeito entrar em terapia (costumo dizer que há diferença entre "frequentar" e "entrar" em terapia), começar a se ver implicado numa posição que ele ainda não havia se colocado ou se ver responsabilizado de alguma forma, enfim, se houver contrariedade consciente ou inconsciente, pronto: ele irá fugir!

Algumas vezes o boicote a análise é sutil, outras vezes é proposital mesmo. A verdade é que a grande maioria não está preparada para um processo de terapia emocional intensiva.

Recebo muita gente querendo apagar incêndio, como se o consultório fosse um pronto socorro emocional, e depois sanada a questão pontual, a terapia passa a ser supérflua e desnecessária. Mas não é assim que funciona, num acompanhamento terapêutico tiramos muita coisa do lugar, levantamos o tapete e propomos uma varredura para que saia tudo o que está lá embaixo. 

O objetivo de autoconhecimento é sério e traz incontáveis vantagens se tratado com a relevância que merece.

Já dá até pra ficar mais descolado com algumas terapias, quando estão atingindo o ponto nevrálgico (que normalmente é sinônimo de “chato” para o analisando), vai rolar uma fuga, mas mesmo sabendo, não há o que ser feito, retroceder para tornar as sessões agradáveis e prazerosas, não é o objetivo. 

Busco avisar bem avisado logo na entrevista: o setting analítico não é necessariamente um local de desabafo, aqui é um lugar de literalmente falar o que quer e ouvir o que não quer; um acompanhamento pode se tornar difícil e é aí que será necessário bancar a permanência; mas não adianta. Eles fogem mesmo!

Confesso que grande parte das vezes eu abstraio e considero parte do processo natural, mas algumas vezes isso me aborrece profundamente porque deu trabalho chegar até ali, galgar os degraus até vislumbrarmos respostas importantes, são conquistas que acabam por não se efetivar porque a propensão à fuga é maior que o meu apelo pelos resultados.

Ainda devo considerar um ganho quando a fuga se estabelece através dos meios amigáveis, porque muitas vezes o sujeito entende como necessário o rompimento, acontece a transferência, ele se indispõe com o analista para que possa subsidiar a sua fuga. Como dizem os adolescentes: “aí é osso”!

O setting analítico não deve ser visto como pronto socorro emocional ou pelo menos não só isso. Um acompanhamento terapêutico deve ser interpretado como um investimento definitivo e sério sobre sua qualidade de vida emocional.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

DIA DAS MÃES



Ontem foi Dia das Mães. Minha opinião sobre a comemoração desta data oscila bastante, ora penso que é o absurdo da fomentação comercial, ora penso que o ser humano é por natureza relapso com as suas considerações de reconhecimento e gratidão, então se for necessária a invenção de uma data para que isso ocorra, que haja.
Alguns fatos me chamaram a atenção e me instigaram a compartilhar meu ponto de vista. 

Recebi várias mensagens de saudações, retribuí a todas com satisfação, até que uma me chamou a atenção, era de uma conhecida que colocou no e-mail algo que remetia para interpretar que finalmente ela se sentia apta a desejar um feliz dias das mães sem sentir recalque nenhum por isso, porque agora ela era mãe.

Aí fiquei pensando o quão equivocado pode ser o desejo da maternidade, um filho não é e não pode ser nunca objeto de realização pessoal de ninguém. É muita responsabilidade e também muito injusto para uma criança nascer para atender o projeto de vida de alguém.

Filho não cura doença, não salva casamento, não muda personalidade, não é recurso financeiro e não faz mágica na vida de ninguém. E se alguma coisa disso ou tudo isso acontecer, ótimo, pode ser tratado como consequência, mas não podemos gerar um filho tendo traçado alguma coisa assim como objetivo.
Gerar um filho é bom, parir um é bom também, mas a grande experiência da maternidade é o que vem depois disso: criar, amar, ensinar, aprender, apostar, confiar, defender, amparar, disciplinar. Todo esse investimento é que representa a grandeza da maternidade, não é exibir barriga crescendo e fazer parto cesariana (nada contra cesariana, bem como nada a favor).

E criar um filho é investimento sem garantia ou espera de retorno. Acontece através do método empírico, aquele que é por tentativa e erro, tentamos acertar, erramos, depois acertamos e assim segue. Não tem como fazer a opção de ter um filho e pensar em apresentar-lhe a conta lá na frente. O investimento é seu! Ele corresponderá por consequência, não por obrigação.

É cuidar, ensinar, proteger, tendo em mente que se tratará de um indivíduo independente um dia, com desejos próprios, que podem ou não (quase sempre não) corresponder aos seus. E você não poderá cobrá-lo de sua parte no acordo, porque não há acordo, o que há é uma proposta de alguém que julga ser capaz de oferecer algo construtivo a outro ser, e que através dele o mundo poderá experimentar ser um pouquinho melhor, se assim ele desejar.

E acredite: isso não é altruísmo. É uma manobra egóica disfarçada que se manifesta na pele de cordeiro. Sentimos prazer e satisfação ao vermos nossos filhos lindos, educados, recebendo seus diplomas desde o jardim de infância, depois se desenvolvendo de forma saudável e promissora. Nosso orgulho (que vem do “útero do ego”) vibra!

Não estou desmerecendo o amor de mãe, afinal sou mãe. Estou apenas dizendo para não nos iludirmos e nem nos envaidecermos com a maternidade. Ela é linda sim! Mas sua beleza não está num barrigão; não está em cumprir uma “sentença social”: que toda mulher nasce para ser mãe; não está nas projeções que fazemos sob uma vida que não nos pertence. Está na capacidade de doação, de investimento de amor.

Feliz a mãe que ama, só pelo fato de se ver mãe dentro das quatro paredes do seu coração, sem passar pelo holofote da vaidade.