BEM VINDO!

Este é um espaço criado para que possamos trocar informações sobre:

- Psicanálise;
- Comportamento Humano;
- Patologias Psicoemocionais;
- Sentimentos: que constroem e que destroem;
- Relacionamentos;
enfim, toda abordagem que puder levar informação sobre melhor qualidade de vida
emcional.

Os textos não têm a pretenção de orientar, mas sim de poder oferecer uma alternativa de interpretação.
Sinta-se a vontade para opinar, contestar e discutir. Aqui, o que você pensa, será bem vindo!

Abraço,

Lindalva Moraes Pereira
Psicanalista –
SJCampos

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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

LUTO PELA ÓTICA DE UM ENLUTADO II


Num outro blog eu escrevi vários textos sobre Luto e alguns eu resolvi transferír pra cá, então corre o risco de haver alguma redundância nas falas, me desculpem por isso.

Quando você abre os olhos pela manhã, e não vem vontade nenhuma de sair da cama porque fora dela não há nada que lhe entusiasme o suficiente naquele momento, e ficar ali te protege de uma realidade cruel que exige energia para ser enfrentada todos os dias, isso pode ser muita coisa, inclusive o princípio do luto. Que é um sofrimento tão legítimo que ninguém vai exigir muito de você, porque afinal a apatia faz parte dele.

O luto é aprender a viver sem, reinventar uma rotina que aquela pessoa amada não faz mais parte, é reconfigurar suas emoções, ritualizando seus rompantes de saudade para ficarem administráveis aos poucos.

Há uma parte do luto que é evitável e outra não. A parte evitável é quando fazemos a opção de parar de alimentá-lo, ou seja, se ainda não é hora de rever fotos, de se agarrar a pertences guardados, a buscar o cheirinho na última roupa usada, não faça. Haverá um dia, um momento que isso poderá ser feito e terá uma repercussão diferente. O Freud falava muito em significado e significância. Com o tempo o significado de hoje ganhará outra significância. Insistir agora, não ameniza a saudade ou o sofrimento, só fomenta.

A parte que é inevitável é quando um pensamento invasivo te pega de surpresa, uma lembrança, um evento que inevitavelmente te remete a sua perda irreversível. Quando uma cena, uma música ou cheiro simplesmente aparece e aí vem imediatamente o sentimento de perda: eu nunca mais terei isso… ou então, quando você evita as lembranças, e se ocupa o tempo todo ou o quanto for possível, num ritmo quase frenético, até que transborda e você é remetido involuntariamente ao sentimento brutal de saudade e perda. Aí não há o que fazer: é se entregar, esperar passar e buscar o equilíbrio novamente.

É preciso pôr a casa em ordem, coisas que só o enlutado pode fazer: gavetas acumuladas, tudo que te remete a sua perda, espalhado pelos cantos, bem como estão os sentimentos por dentro.

Tem uma outra coisa que eu descobri: o enlutado vira uma figura constrangedora pro outro. Então, vou tentar ajudar com isso:

  • se você encontrar com um enlutado, que não teve ainda a oportunidade de encontrar, não se sinta obrigado a dizer nada. Não diga: sinto pela sua perda; meus pêsames, esses dizeres prontos que são para serem ditos na semana da perda ou no máximo na semana seguinte. Um mês depois, não. Ok?;
  • se encontrar no elevador: não precisa ficar aquele silêncio de cortar com faca. Fala da falta de chuva, fala mal do governo, fala do preço do pão francês, enfim, qualquer coisa que conversaríamos antes ou com qualquer outra pessoa, ou então não fala nada, mas sem constrangimento;
  • não veja o enlutado como coitados condenados, não somos enlutados, estamos enlutados;
  • não diga: "eu nem consigo me por no seu lugar", não se ponha mesmo e não tente. Seria em vão pra nós e para você.


O luto tem um apelo de te remeter para humildade que às vezes nos escapa e que vem muito a calhar com coisa da perda.


O que se leva dessa vida é básica e totalmente nada, além de vivências e aprendizados. Nos ater mais ao que vale a pena levar e menos ao que inevitavelmente vai ficar pra trás... acho que é isso...

LUTO PELA ÓTICA DO ENLUTADO I

Eu sei que eu já escrevi sobre luto antes, e provavelmente a versão será muito diferente, no sentido de mais completa do que o texto anterior.

Eu queria recomeçar escrevendo sobre psicofármacos, que é o que eu estou estudando e é muitíssimo interessante, mas a bola da vez é o luto e para não perder o que ainda está fresco na minha cabeça, depois falaremos sobre remédios.

Comecemos pela definição: a Psicanálise trata como luto qualquer tipo de perda que traga como consequência o sofrimento do sujeito: fim de casamento, a morte do cãozinho de estimação, perda do emprego de tantos anos, óbito de um pai, mãe, filho, etc.

Sendo assim, deve "obedecer", de certa forma, algumas fases, que alguns pensadores dividem em 5, outros em 3 e ambos estão corretos, porque cada um, é um.

São elas:

- Negação: o nome já diz. É a dificuldade de acreditar, de ter a sensação o tempo todo de que foi um engano e tudo irá voltar a ser como antes;

- Raiva: que pode ser contra um eleito (culpado), Deus (bastante comum) ou o próprio objeto/sujeito de perda (por que você me abandonou, não tinha o direito de me fazer sofrer tanto assim... essa transição de sentimentos, não é lógica e elaborada, está mais para uma pulsão do inconsciente, que também está buscando a sua sobrevivência psíquica);

- Saudade: é a que mais dura, maltrata e adoece o enlutado. Ele busca lembranças, fotos, objetos que o remetam ainda mais para o seu luto, na tentativa de apaziguar seu sofrimento, no entanto, só o fomenta. Muitas pessoas ficam anos e anos presas nessa fase.

- Negociação: essa, nem de perto é vivida de forma consciente pelo indivíduo. Aqui o inconsciente está buscando reparação e compensação para o Ego. Porque ele tinha e não tem mais, porque ele era e não é mais...

- Aceitação/ Elaboração: ufah! Libertação, pelo menos da pior parte que o luto nos impõe. É buscar através dos próprios recursos que escolher pra isso, que a única saída é reinventar sua vida sem o que foi perdido; é pensar que o estado de paz e felicidade é possível através de uma reconfiguração.

Estas fases não se comportam cronologicamente bonitinhas como vocês vêm acima. Elas oscilam, quando você pensa que já superou uma delas, algum sintoma volta com tudo e assim vai se indo.

Exitem muitas armadilhas no luto: a depressão é uma delas. E sabe por que? Porque há legitimidade. Porque todos reconhecem que o luto pode representar a dor suprema, então, digamos que é autorizado ao enlutado deprimir e muitos caem nessa arapuca quase inevitável.

Eu achava que o enlutado tinha direito a um antidepressivozinho, mas fui convencida que isso está errado. Ele pode até utilizar um indutor do sono, mas ele precisa enfrentar seu luto de cara limpa, só assim ele se curará, senão ficará tratando sintomas e congelando seu luto por tempo indeterminado.

O que vocês interpretariam da frase do Freud abaixo:

"Segundo Freud (1920) que no luto, entendido como uma constelação de reações psíquicas, conscientes e inconscientes, há uma perda da libido antes investida no objeto amado, porém a perturbação da autoestima esta ausente (Freud,1920. p,250), já na melancolia não há necessariamente uma morte e sim uma perda inconsciente do objeto de amor, levando o ego a um estado de pobreza da libido... Dessa forma uma perda objetal se transformou na perda do ego... (Freud, 1920.p, 255)."
Fonte:http://psicologado.com/abordagens/psicanalise/luto-e-melancolia-nas-teorias-de-freud-e-melanie-klein 

Não. Não tem nada a ver com sexo! Perda da libido, ele quer dizer investimento de amor e querer bem, que o Ego fica a não ter a quem destinar. O Ego fica mais empobrecido e consequentemente a autoestima também. Tudo inconsciente...

Se autorize a sofre sua perda, com todas as lágrimas que lhe são de direito, não se culpe de uma gargalhada porque isso não pertence ao enlutado, reinvente uma vida saudável, incluindo até possibilidades que antes não haviam.

No começo, estabeleça metas, e siga cumprindo mesmo que metodicamente e sem vontade: levante da cama na hora combinada, banho não é negociável, faça uma lista de afazeres e cumpra.

Muito importante: esqueça o "porquê", primeiro porque ele não existe e se existisse não traria ninguém de volta.

Se for necessário, crie seu ritual que lembre ou homenageie quem partiu, mas não crie a paranóia de que ele te acompanha 24 horas por dia, porque inclusive os mortos devem ter mais o que fazer... E esse ritual só pode ser considerado como objeto de transição, não pode durar pra sempre. Ok?


DIVISOR DE ÁGUAS

Olha só: este blog foi criado há muitos anos atrás e certamente muita coisa mudou de lá pra cá, como por exemplo meu jeito de escrever, meus pensamentos, meus conhecimentos, até por causa da prática clínica, que ensina tanto quanto o cenário acadêmico, que aliás eu não tenho deixado de frequentar de um jeito ou de outro. Mais principalmente, porque eu, pessoa, por trás da figura analítica mudou. Certo até aqui?

Dito isso a segunda coisa muito importante a ser esclarecida é que eu escrevo para leigos, analisandos ou profissionais, que estejam dispostos a propor um debate e a me ajudar a produzir uma ideia nova, um pesamento inusitado. Questionamentos que buscam respostas, isso eu adoro. 

A Psicanálise precisa perder a cara elitizada que tem, e o português rebuscado demais que nem mesmo os intelectuais da área estão certos do que estão dizendo porque alguns já se perderam em suas próprias falas. E não sou eu quem está dizendo isso não, só estou engrossando o coro do Dr. Py, Dr. Aricó, entre outros mestres da Psicanálise contemporânea.

A minha ideia sempre foi essa: disponibilizar, possibilitar conhecimento descomplicado na medida do que é possível. Trocar experiência, oferecer a minha e também ganhar com a sua. 

Eu não pretendo reler artigos antigos, consertar o que eu acho que poderia ter ficado melhor, nada disso, vai tomar um tempo que hoje eu não disponho. Então, se colocar no campo de busca algum tema que lhe interesse, prefira o mais recente, depois até veja o mais antigo se preferir.

Se você tem alguma ideia diferente dessa, não perca seu tempo nesse Blog. Crie seu próprio Blog e se disponha a espernear por lá. Ok?

Acho que essa minha versão mais madura, menos acovardada e mais provocativa vai render bons frutos. Perdi muito tempo, deixando de escrever o que eu pensava, preocupada com a contabilidade da repercussão positiva ou negativa. 

O Freud dizia que a sua atitude diz muito pouco sobre você, mas em compensação suas motivações revelam tudo. E eu confio nas minhas motivações, que são de boa fé!

Tudo de bom pra nós!